Emil Mihai Cioran (08/04/1911 20/06/1995), pouquissimo conhecido por estas terras tupiniquins, é uma dos pensadores, ditos mais pessimistas, e até recebeu a alcunha de "filósofo do nada". Quase caímos no desprezível risco de ignorá-lo diante de nossa perspectiva algoz de julgar quase tudo pelas primeiras impressões.Cioran entrou muito cedo para a universidade em Bucareste, com 17 anos, e teve contatos com filósofos existencialistas, o que marcou para sempre a sua obra. Tornou-se agnóstico muito cedo e os pensadores Emmanuel Kant, Arthur Schopenhauer e Friedrich Nietzsche o influenciaram fortemente, entre outros. Cioran graduou-se com uma tese sobre Henri Bergson, pelo qual teve enorme interesse, porém, mais tarde Cioran renegaria a obra de Bergson alegando que aquele não tivera a profunda compreensao da tragédia da vida.
Em sua vida, polêmica, embora exageradamente discreta, Cioran, ainda jovem seduziu-se pelo nacionalismo e foi simpatizante do estadista Hitler. Posteriormente, Cioran reconheceu o erro que cometera e repudiou toda a influência que ele alegou ser oriunda de um paixão nacionalista, o que foi muito alvo de suas críticas em alguns de seus livros e pensamentos.
Sofredor de crônica insônia, Cioran escrevia muito, e alegou que era desse processo cansativo e exageradamente lúcido que suas ideias surgiam, embora tivesse até criticado tudo o que escrevera.
Fixando-se na França, a partir de 1937, ganhando uma nova bolsa de estudos em Sorbonne, a primeira teria sido para a universidade em Berlim, Cioran jamais concluiu sua tese sobre o filósofo Nietzsche e jamais retornou ao seu pais natal. A partir de então, passou grande parte de sua vida vivendo como bolsista, produzindo pouquíssimo e as vezes nada. Durante 10 anos assim ficou. Tomava sua refeição nos restaurantes universitários, o que fez até os seus 40 anos, quando foi desligado de Sorbonne. Ele mesmo disse" Eu preferi levar uma vida de parasita a exercer uma profissão", em suas raríssimas entrevistas. Avesso às pessoas, quando falava deixava claro que a liberdade e a independência era, segundo ele, marcado pela passagem pelo ócio.
Suas obras, agora disponíveis no Brasil e publicada pela editora Rocco, entre as mais importante são: Breviário de Decomposição, Exercicios de Admiração, Historia e Utopia e Silogismos da Amargura - esta última crescente em popularidade nos últimos anos.
Um Mistério chamado Simone Boué
Após a morte de Cioran, em 1995, uma personagem chamada Simone Boué entra em cena; uma professora de inglês do interior da França, passa a ser foco de investigações históricas, até agora pouco produtivas. Cioran nunca falou dela; ela seria um mistério para todos, se dependesse dele. No entanto, apesar da misteriosa discrição dele a respeito dela, sabe-se por meio de testemunhos diversos que ele e Simone eram intimos desde jovens, tendo travado uma relação sólida e perene (o que foi surpresa para os que levantam a vida de Cioran em algumas biografias) por mais de 50 anos. Do quarto que dividiam desde a juventute até aos passeios de bicicleta, a existência de Simone em sua vida é patente; até mesmo em seus"cadernos" (rascunhos em mais de 30 cadernos descobertos após sua morte) o pronome "nós" é frequentemene citado e entendido por seus biógrafos como referência a Simone. Simone Boué esteve ao lado dele toda a vida e até ao falecimento de Cioran. Dois anos depois, misteriosamente, ela faleceu, em condições suspeitas, em Dieppe, onde passavam juntos o verão; suspeita-se que ela tenha cometido suicidio, mas são apenas especulações. A relação de Cioran e Simone é alvo de muita curiosidade já que o pensador, pessimista e existencialista, escreveu muitas críticas ao sentimento platônico, mas manteve estrita discrição em uma relação encoberta por um mistério com ar de romance muito profícuo.
Cioran faleceu aos 84 anos das complicações do Mal de Alzheimer.
Suas frases de efeito são as mais marcantes do século, agora que se descobre Cioran com profundo respeito ao ler suas obras. Destacarei aqui algumas de suas pérolas e pensamentos demolidores.
São muitas e as destacarei em outro post chamado Mais Cioran- II.
Por necessidade de recolhimento, livrei-me de Deus, desembarei-me do último chato.
O paraíso é a ausência do homem.
A consciência é bem mais que um espinho, ela é o punhal na carne.
Amo o pensamento que guarda um gosto de carne e sangue, e a uma abstração vazia prefiro mil vezes uma reflexão surgida de uma exaltação dos entiodos ou de uma depressão nervosa.
A arte de amar? Saber unir a um temperamento de vampiro a discrição de uma anêmona.
Só vivo porque posso morrer quando quiser: sem a ideia do suicidio já teria me matado há muito tempo.
Acredito na salvação da humanidade, no futuro do cianureto...
Todos os seres são infelizes; mas quantos o sabem?
Não se habita um país, habita-se uma língua. Uma pátria é isso e nada mais.
Tudo aquilo que pensei, tudo aquilo que escrevi ao longo dos anos, é indissociável do que eu vivi. Não inventei nada, tenho sido apenas o secretário das minhas sensações.
Esperar é desmentir o futuro.
O momento em que pensamos ter compreendido tudo dá-nos ar de assassinos.
Só tem convicções aquele que não aprofundou nada.
É inútil construir tal modelo de franqueza: a vida só é tolerável pelo grau de mistificação que se põe nela. Tal modelo seria a ruína da sociedade, pois a “doçura” de viver em comum reside na impossibilidade de dar livre curso ao infinito de nossos pensamentos ocultos. É porque somos todos impostores que nos suportamos uns aos outros. Quem não aceitasse mentir veria a terra fugir sob seus pés: estamos biologicamente obrigados ao falso. Não há herói moral que não seja ou pueril, ou ineficaz, ou inautêntico; pois a verdadeira autenticidade é o aviltamento na fraude, no decoro da adulação pública e da difamação secreta. Se nossos semelhantes pudessem constatar nossas opiniões sobre eles, o amor, a amizade, o devotamento seriam riscados para sempre dos dicionários; e se tivéssemos a coragem de olhar cara a cara as dúvidas que concebemos timidamente sobre nós mesmos, nenhum de nós proferiria um “eu” sem envergonhar-se. A dissimulação arrasta tudo o que vive, desde o troglodita até o cético. Como só o respeito das aparências nos separa dos cadáveres, precisar o fundo das coisas e dos seres é perecer; conformemo-nos a um nada mais agradável: nossa constituição só tolera uma certa dose de verdade…


